Na madrugada de terça-feira, Dona Raimunda desceu ao cais de Careiro da Várzea e encontrou a areia onde costumava flutuar o barco da família. O Rio Negro, que em cheia invade quintais e cobre degraus de madeira, estava tão baixo que crianças brincavam a centenas de metros do que seria o leito normal. "Nunca vi assim em setenta anos", disse ela, apontando para marcas de barro nos troncos das árvores.

A estação fluviométrica de Manaus registrou, na semana passada, o menor nível para o mês de junho desde o início das medições sistemáticas, no século XIX. Não se trata apenas de um número em planilha: na prática, significa viagens mais longas para a escola, peixe mais difícil de encontrar nos igarapés secos e custo maior do frete de alimentos que chegam de barco.

Rotina que se rearranja

Na comunidade de São Raimundo, a cerca de 40 quilômetros de Manaus, a professora Cláudia reorganizou os horários das aulas. Parte dos alunos agora vem a pé por trilhas que antes eram percorridas só de canoa. "A gente espera a maré — digo, a água — voltar um pouco para retomar o transporte coletivo", explicou. A prefeitura enviou um barco adaptado, mas ele só passa duas vezes por semana.

Pescadores como João Batista mudaram o foco da pesca ornamental, atividade que sustenta dezenas de famílias na região. Com menos água nos afluentes, cardumes de tetras e acarás se concentram em poços cada vez menores — o que facilita a captura no curto prazo, mas preocupa quem estuda o equilíbrio ecológico.

"A seca não é novidade, mas a frequência e a intensidade mudaram. O que vemos agora parece outro padrão", diz Marina Costa, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

O que os dados mostram

Segundo o INPA, a combinação de menos chuvas no alto Negro, temperaturas elevadas e alterações no regime de ventos contribui para a estiagem prolongada. Não é possível atribuir um único evento ao clima global, mas os modelos indicam que episódios assim tendem a se repetir com maior amplitude nas próximas décadas.

Para as comunidades, a resposta imediata passa por redes de solidariedade. Associações ribeirinhas de Careiro e Iranduba montaram um mutirão para abrir pequenos canais de ligação entre igarapés isolados, facilitando a circulação de canoas leves. Há também um cadastro de famílias que perderam hortas inundáveis — agora expostas ao sol direto, com perda de mandioca e banana.

Olhar para além da crise

Enquanto câmeras de televisão nacional mostram apenas o "chão do rio" como curiosidade, moradores pedem políticas de adaptação: poços artesianos com manutenção regular, rotas alternativas de transporte escolar e crédito para armazenamento de sementes. "Não queremos sermão. Queremos escuta", resumiu Edmilson, líder comunitário em Iranduba.

O Amazônia em Foco seguirá acompanhando os níveis do Rio Negro e publicará, nas próximas semanas, um mapa colaborativo com relatos de leitores ao longo do curso do rio. Se você vive em comunidade afetada, envie sua história para [email protected].

Atualizado em 6 de junho de 2026 para incluir dados revisados da estação de Manaus.