O cheiro de açaí maduro mistura-se ao som de motores de barco no porto de Icoaraci. É agosto de colheita — na verdade, maio, quando os cachos roxos pendem das palmeiras atrás das casas de madeira. Neste ano, porém, a conversa na Cooperativa Açaí da Várzea não é só sobre volume: é sobre selo, preço justo e a primeira exportação formal para o Sudeste.

Fundada em 2021 por um grupo de 38 famílias cansadas de vender para atravessadores que pagavam pouco, a cooperativa cresceu com ajuda técnica da Emater e de uma ONG de comércio justo. Hoje reúne 214 famílias de dez comunidades ribeirinhas. O diferencial é o rastreio: cada lote de polpa leva código que identifica a área de coleta, a data e o responsável pela beneficiamento.

Do pé à prateleira

Seu Manoel, 58 anos, mostra o caderno onde anota a produção diária da roça. "Antes, o comprador dizia que meu açaí era ruim para baixar o preço. Agora eu mostro o registro e negocio direto", conta. A cooperativa instalou uma pequena unidade de pasteurização — financiada por edital estadual — que aumentou a vida útil do produto e permitiu negociar com compradores distantes.

O acordo com as redes de supermercado prevê revisão de preço a cada seis meses e cláusula de compra mínima. Não é perfeito: os custos de transporte refrigerado ainda consomem boa parte da margem. Mas, segundo a presidente da cooperativa, Janaína Moraes, é um começo que estabiliza a renda de quem antes vivia do dia a dia.

"Queremos que o consumidor em São Paulo saiba que aquele açaí veio de uma palmeira mantida em pé, por uma família que cuida da mata", diz Janaína.

Sustentabilidade na prática

A extração segue regras acordadas internamente: proibido cortar palmeiras, rotação de áreas de colheita e mutirão anual para replantio de mudas. Técnicos da Emater fazem visitas trimestrais. Há discussão sobre certificação orgânica, mas o custo ainda assusta pequenos produtores.

Pesquisadores da UFPA acompanham o projeto e medem impacto na cobertura florestal ao redor das comunidades participantes. Os dados preliminares indicam manutenção da área de várzea — em contraste com regiões onde o açaí é plantado em monocultura intensiva, prática que preocupa ambientalistas.

Desafios pela frente

A cooperativa ainda depende de gelo e energia elétrica instáveis. Falta caminhão refrigerado próprio; o aluguel come no lucro. Jovens pedem capacitação em gestão e marketing digital — áreas onde a Emater promete novos cursos no segundo semestre.

Para Ana Pirarucu, que acompanha economia da floresta há oito anos, Icoaraci mostra que desenvolvimento sustentável não é slogan de folder. "É contrato, caderno de anotação e gente disposta a esperar o açaí amadurecer no tempo certo", resume.

Atualizado em 16 de maio de 2026 com confirmação do volume do primeiro lote exportado.