O sol ainda não entrou na copa quando os adolescentes da aldeia Watoriki se reúnem na sala de aula de palha e madeira. Na parede, um mapa do território yanomami convive com cartazes de multiplicação e um quadro com os nomes das plantas medicinais em português e na língua xamata. A professora Hwega, 34 anos, começa a aula não pela lousa, mas por uma pergunta: "O que vocês observaram na trilha ontem?"
É assim que funciona a Escola Estadual Indígena Watoriki, referência entre as 14 unidades de ensino médio no território yanomami no Amazonas. O modelo mistura currículo oficial com pedagogia intercultural — uma expressão que aqui ganha sentido concreto: geografia aprendida caminhando, história contada pelos mais velhos, matemática aplicada ao cálculo de sementes para o plantio.
Duas formas de saber, um só caminho
Para Kaiu, 16 anos, a escola abriu portas que seus pais não tiveram. Ele quer estudar enfermagem e voltar para trabalhar no posto de saúde da região. Mas não pretende abandonar a roça nem as festas tradicionais. "Aprendemos na floresta antes de aprender na lousa", diz, com um sorriso tímido. Sua mãe, líder de mulheres na aldeia, acompanha as reuniões pedagógicas e cobra que os conteúdos respeitem a cosmologia yanomami.
Nem tudo é simples. A internet chegou de forma irregular via antena satelital, e parte dos jovens passa horas em telas — um tema que divide gerações. Há também a dificuldade de reter professores não indígenas, que raramente permanecem mais de um ano. A solução encontrada foi ampliar a formação de educadores locais, com apoio da Universidade do Estado do Amazonas e de organizações indígenas.
"Não queremos uma escola que apague nossa língua. Queremos uma escola que nos prepare para dialogar com o mundo sem perder quem somos", afirma Hwega.
Desafios estruturais
A escola enfrenta falta de material didático impresso em língua indígena e transporte escolar dependente de voos irregulares. No período de cheia, alguns alunos de aldeias vizinhas ficam semanas sem conseguir chegar. A Secretaria de Educação do Amazonas informou que um novo dormitório está em construção, mas moradores ouvidos pela reportagem dizem que obras assim costumam atrasar.
Apesar das limitações, os números locais mostram evolução: mais jovens concluem o ensino médio e candidatos a cursos técnicos em Manaus e Boa Vista. O êxito, segundo coordenadores, está em tratar a escola como extensão da aldeia — não como ilha imposta de fora.
O que outras comunidades podem aprender
Especialistas em educação indígena citam Watoriki como exemplo de autonomia pedagógica, mas alertam contra modelos copiados sem escuta. Cada povo tem ritmo, língua e prioridades distintas. O que funciona aqui pode não servir para uma aldeia Tikuna no Alto Solimões, por exemplo.
Para Rafael Tukano, autor desta reportagem, cobrir educação indígena é retornar às próprias origens. "Eu estudei em escola que não falava minha língua. Hoje vejo meus sobrinhos aprendendo de outro jeito. Isso merece ser contado com cuidado", diz.
Atualizado em 29 de maio de 2026 com declaração da Secretaria de Educação do Amazonas.